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Esta tour inédita à terra de ninguém é só para os mais corajosos

A Young Pioneer Tours está a organizar uma visita a Bir Tawil, um território que nenhum país quer. Esta viagem promete.
A excursão decorre em novembro.

Prepare-se: vem aí uma das viagens mais perigosas da sua vida e promete levá-lo por terras onde não existem leis. Preso entre o Sudão e o Egito, Bir Tawil é o único pedaço de terra habitável não reclamado do mundo. A verdade é que, ao longo de décadas, tem sido reivindicado pelos mais audazes aspirantes a governantes.

Atualmente é uma terra de ninguém, mas vai poder visitá-la entre os dias 18 e 25 de novembro deste ano. Para isso, só tem de agendar a visita com a empresa YPT (Young Pioneer Tours). Esta é a segunda tour que fazem ao local e a primeira correu tão bem que até escreveram um livro. “Publico viagens que quero fazer e existem pessoas pelo mundo que sentem o mesmo que eu. Esta é a verdadeira exploração. Vocês perguntam porquê, nós perguntamos: por que não?”. Foi assim que Gareth Johnson, um dos fundadores da YPT, explicou à NiTtravel a razão de ter organizado uma viagem até este spot.

Para quem nunca ouviu falar de Bir Tawil, convém recuar um pouco e explicar-lhe a sua história. As raízes da “desreivindicação” deste território remontam a mais de um século, em 1899 e 1902, respetivamente, quando foram publicados dois mapas cartográficos coloniais britânicos que criaram duas versões distintas da fronteira entre o Egito e o que era, na época, o Sudão Anglo-Egípcio.

O documento de 1902 impôs, contrariamente ao que havia sido decidido três anos antes, que o Egito administrasse Bir Tawil. Como consequência, o território vizinho, economicamente mais produtivo — conhecido como o Triângulo Hala’ib — passou para o lado do Sudão.

Hala’ib, tal como Bir Tawil, trata-se de um triângulo de terra arenoso e rochoso. Contudo, é muito maior e, por fazer fronteira com o Mar Vermelho, é mais valioso. O impasse da terra nullius começou não devido ao próprio território, mas por causa deste vizinho. Tanto o Egito como o Sudão queriam Hala’ib, mas, da forma como a fronteira foi criada, cada país podia ter apenas um. Ou Bir Tawil ou Hala’ib — não ambos. Quem reivindicasse Bir Tawil teria que abrir mão da outra terra mais lucrativa.

Foi em 1956, com a independência do Sudão, que começaram os problemas. O governo sudanês declarou as suas fronteiras como aquelas estipuladas na segunda proclamação, tornando o triângulo Hala’ib parte do seu território. O Egito, por outro lado, afirmou que se tratava de uma jurisdição administrativa temporária e que a soberania tinha sido estabelecida no tratado de 1899. Isso fazia com que o triângulo Hala’ib fosse egípcio.

Esta disputa fez com que nenhum dos países aceitasse Bir Tawil como seu, tornando-o naquele que é hoje um dos poucos territórios sem governante — o que não é totalmente verdade. Este pequeno pedaço de terra tem-se tornado num local para a imposição de certos tipos de imaginários geográficos e são várias as pessoas que tentaram reivindicar Bir Tawil, como os dois amigos russos Dmitry Zhikharev e Mikhail Ronkainen.

Também Jeremiah Heaton, em junho de 2014, tentou reivindicar Bir Tawil, cravando uma bandeira em nome da sua filha que sonhava tornar-se uma verdadeira princesa. Outros ainda estão a tentar repetir o mesmo feito. Um empresário indiano, Suyash Dixit, chegou a Bir Tawil em 2017 e colocou a sua própria bandeira.

Avisamos já que Bir Tawil não é um lugar de fácil acesso: para visitá-lo tem de conseguir a permissão de algum dos dois governos. Uma vez que não tem nação, não está abrangido por qualquer lei, daí o grande perigo que se corre ao viajar sozinho pelos vastos quilómetros de areia, que podem levar a encontros arriscados com gangues armados ou contrabandistas.

Sim, porque, apesar de ser uma terra de ninguém e de não ter habitantes permanentes, é uma área de acampamento para as tribos nómadas Ababdehs e Bisharin, além de ser o local escolhido para se colocarem em prática atividades não permitidas por lei nos países vizinhos.

Porém, isso não significa que tenha de desistir desta viagem inédita. Prometemos que vai valer a pena e será uma experiência de adrenalina única. A própria equipa do YPT assegurou, em entrevista à NiTtravel, que têm “boas relações com a tribo e não existem riscos graves. Apenas os perigos de qualquer viagem no deserto.”

Para chegar ao destino, a tour vai partir do Sudão — o que permite que conheça também parte desse país. Primeiro vai ser possível visitar as múltiplas necrópoles antigas da república africana. Em seguida, o grupo segue para o norte, em direção à fronteira Sudão-Egito. Este percurso será feito não pelas estradas, mas diretamente pelas profundezas dos desertos. Finalmente, chega-se a Bir Tawil e explora-se esta terra por um dia inteiro, pisando um território onde ninguém governa.

O programa tem a duração de sete dias e custa 1100€. Este valor inclui o alojamento em Khartoum em regime de quarto duplo partilhado e pequeno-almoço, equipamento de campismo e todas as refeições fora de Khartoum. Inclui ainda a Letter of Invitation e visa support para o Sudão, assim como o transporte e taxas de entrada.

Se já está convencido a fazer esta viagem incrível e a conhecer o panorama de metal, corpos e lama, o melhor é fazer a reserva. O grupo vai ser constituído apenas por dez visitantes. Esta é a derradeira aventura para os mais corajosos. Não perca a oportunidade de fazer história e afirmar que esteve realmente em Bir Tawil. Poucas pessoas têm a sorte de poder dizê-lo.

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