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A Bosta em Lata foi a melhor ideia saída do “Shark Tank Brasil”

O humorista e cronista da NiT Miguel Lambertini escreve sobre o programa que chegou recentemente a Portugal.
Bosta em Lata é um adubo para uso doméstico.

“Shark Tank Brasil — Negociando com Tubarões” estreou a 15 de abril na SIC Radical. Como todos os franchises, este também é uma cópia do formato original, com a diferença de que os termos em inglês passam a ter aquela sonoridade gostosa, que os brasileiros tão bem sabem atribuir. Termos como brei kivam (break even), ford castxi (forecast), valueixôm (valuation), ou markapi (mark up). Sharki Tenki tem em mim o mesmo efeito que todas as anteriores edições, principalmente a americana, porque a portuguesa era um género de “Shark Tank” dos pequeninos, que é o pensamento: “caraças, como é que este gajo se lembrou disto… fdp.”

Claro que eu não tinha a mínima pachorra para gerir um negócio, mas fico cheio de inveja de pessoas que têm boas ideias. Uma coisa que eu adorava ter inventado é aquele alicate gigante, o Super-Cut, uma ferramenta que é três em um e “corta absolutamente tudo”. Quem é que nunca sonhou poder cortar um par de sapatos para transformá-los em chinelos, ou um frigorífico para fazer um mini-bar para o quarto, ou mesmo uma frigideira Master Copper em mil pedaços depois de perceber que aquilo é um embuste e não vão devolver o dinheiro, como dizem no anúncio do mesmo canal onde curiosamente vendem o Super-Cut? É realmente uma invenção extraordinária, mas foi outro sacana que a idealizou.

“Shark Tank Brasil — Negociando com Tubarões” faz juz ao seu nome, isto porque os investidores não raras vezes engolem os participantes com as percentagens de negócio que conseguem garantir, por vezes acima dos 60 por cento. Isto significa que os participantes chegam ao “lago” como empreendedores detentores de uma marca ou negócio e saem de lá, muitas vezes, como simples empregados da empresa que criaram. Alguns deles terminam a negociação e estavam prontos para contracenar num daqueles filmes marotos do Alexandre Frota, porque também eles ficaram peritos em “anal técnico”. João Appolinário, Cristiana Arcangeli, Robinson Shiba, Camila Farani e o cantor Sorocaba são os investidores regulares do programa. Em 1995, uma viagem a Miami mudou o rumo da história de João Appolinário. O empresário voltou dessa viagem com alguns kits de “7 Day Diet” na mala, um suplemento que ajuda a emagrecer. Podia ter optado por trazer uma mala cheia de cocaína, mas além de ser ilegal (o que é chato em termos de marketing), se calhar não teria resultado tão bem como acabou por vir a ser o sucesso deste negócio de suplementos alimentares que gerou uma faturação de 31 milhões de euros.

Cristiana Arcangeli podia ser o nome artístico de uma das companheiras de Déborah Cristall no show de transformismo do “Finalmente”, mas não. Cris, como é conhecida no meio empresarial, foi eleita em 2004 a mulher mais influente do Brasil e tem várias empresas de sucesso na área de estética e beleza. Robinson Shiba era um estudante de medicina dentária no Brasil quando viajou com amigos para os Estados Unidos para melhorar o seu inglês. Só que no meio desse intercâmbio que deveria durar um ano, Shiba foi assaltado e acabou por perder todo o dinheiro que tinha, o que o obrigou a encontrar trabalho em cadeias de fast food. Ainda pensou em regressar ao Brasil, mas se era para continuar a ser assaltado ao menos que fosse nos EUA. 24 anos depois de lavar pratos e entregar pizzas nos Estados Unidos, Shiba é dono da maior rede de fast food chinês da América Latina, o China in a Box, com 160 lojas franchisadas e uma marca presente em mais de 70 cidades brasileiras.

A melhor ideia do programa.

Camila Farani é uma business angel, foi a primeira mulher presidente do Gávea Angels, grupo de investimento-anjo, e é sócia de vários fundos de investimento que apoiam startups. O seu portefólio de startups soma dez investimentos diretos e mais de 20 indiretos em empresas nascentes nos mais variados setores. Fazendo um comparativo com a edição portuguesa, é a versão brasileira do João Rafael Koehler mas sem parecer o Bruno Aleixo.

Sorocaba é o investidor menos óbvio de todos os tubarões. Membro da dupla sertaneja Fernando & Sorocaba, o músico e cantor com chapéu de cowboy é responsável pela gestão da carreira de diversos artistas brasileiros, como, por exemplo, Thaeme e Thiago, Marcos e Belutti, Milionário e Marciano e Lucas Lucco. Não faço a mínima ideia quem sejam, mas só pelos nomes dá para ver que é daquela música mesmo boa.

No que diz respeito a negócios e ideias propriamente ditas, uma vez que esta primeira temporada que está a ser emitida é de 2016, não há propriamente ideias muito inovadoras, pelo que o momento mais interessante do episódio de estreia foi mesmo o pitch do produto Bosta em Lata, pelo menos foi aquele de que gostei mais. Leonardo de Matos acumulou centenas de milhares de euros em dívidas quando era dono de uma confeção de roupas para homem. Segundo diz o próprio, no vídeo introdutório de apresentação: “Achei que a gente estava crescendo, mas na verdade a empresa estava quebrando.”

Eu não percebo muito de gestão, mas sei que há um princípio que é: se entra mais dinheiro do que sai, a coisa está a correr bem; se é ao contrário, a não ser que tenham os contactos e a lábia do Joe Berardo, talvez seja melhor parar. Leonardo só percebeu este conceito complexo tarde demais, mas não se deixou ir abaixo e criou um novo produto que é literalmente uma bosta. Bosta em Lata é um adubo orgânico para uso doméstico e Leonardo levou a sua mulher vestida de vaca para melhor apresentar os benefícios do produto. Estranhamente nenhum dos tubarões (nem sequer o vaqueiro sertanejo) manifestou interesse em investir neste produto. Bosta em Lata está ao mesmo nível de outro produto igualmente extraordinário que são as latas de “ar abençoado” de Fátima, vendidas por um senhor ucraniano a viver há 15 anos em Portugal. Caraças, como é que este gajo se lembrou disto… fdp.

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