opiniao

“Joker” é desconfortável, instável e um dos filmes mais controversos do ano

Joaquin Phoenix concretiza todos os aspetos possíveis da personagem, que torna mais humana e tridimensional.
Pode valer Óscar.
81

“Joker”, o novo filme da DC/Warner que estreia em Portugal esta quinta-feira, 3 de outubro, é mais um capítulo na senda para destronar a hegemonia dos blockbusters da Marvel/Disney. Partindo da interpretação de Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas” que lhe valeu um óscar póstumo para Melhor Ator Secundário, procurou-se fazer de “Joker” uma obra adulta, para adultos, onde todo o destaque reside no magnetismo da personagem.

Não há Batman na história, não há cedências a um público jovem nem o habitual facilitismo para a sempre importante indústria dos brinquedos: “Joker” é feito para ser levado a sério de uma forma que os filmes da Marvel não podem. E se tivermos em conta toda a antecipação, é um triunfo imediato: dias antes da estreia, “Joker” tinha uma pontuação de 9,4 no IMDb, com mais de 16 mil votos. É um facto que diz pouco acerca da qualidade do filme, mas que revela a antecipação fervorosa de quem já decidiu venerar “Joker” antes de o ter visto.

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um palhaço triste sem talento. Ocupado com biscates pouco dignos, Arthur tenta ganhar a vida a fazer rir os outros numa Gotham City sem disposição para isso: a criminalidade é elevada e as pessoas sofrem graves dificuldades económicas. A própria cidade está cheia de lixo, fruto de uma greve prolongada do serviço de recolha — e uma das várias metáforas visuais do filme. O pobre e solitário palhaço vive com a sua mãe enferma (Frances Conroy), que o chama de “happy” — uma pequena ironia relacionada com um problema neurológico que faz com que Arthur ria de forma descontrolada quando se sente melindrado emocionalmente. 

Esta condição obriga-o a ter consigo um cartão laminado a explicar a sua doença que entrega a desconhecidos sempre que tem um ataque de riso numa altura imprópria. É deprimente. Arthur é uma vítima na maior parte da história, humilhado e enganado por todos, e que se afunda cada vez mais numa miséria tão abismal que só lhe resta cometer suicídio ou ripostar, transformando-se no vilão Joker. É uma pena que a transformação de Arthur Speck esteja prevista desde o primeiro frame e que o filme seja, por natureza, uma história com final anunciado. Apesar disso, o guião ainda consegue oferecer algumas surpresas ao longo da descida de Arthur à loucura homicida.

Há uma série de piscares de olhos em “Joker” às suas influências diretas: os rascunhos no diário criativo de Arthur fazem lembrar “Psicopata Americano”, a triste narrativa de Speck remete para a novela gráfica “A Piada Mortal” e a sequência no talk show tem uma homenagem ao seminal “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller. Mais declarado ainda é o casting de Robert DeNiro como o apresentador Murray Franklin, uma inversão propositada de “O Rei da Comédia”, onde era Jerry Lewis o apresentador e DeNiro o sociopata aspirante a comediante. Infelizmente, e por estranho que pareça, Robert DeNiro é um dos pontos fracos do filme: o ator é famoso por não se prestar a conversas de circunstância e parece deslocado no papel de apresentador de talk show. Os outros atores secundários estão melhores: Zazie Beets traz uma normalidade tão necessária a “Joker” enquanto vizinha e espécie de love interest de Arthur, assim como Frances Conroy, que faz um bom trabalho como mãe instável.

Em relação a Joaquin Phoenix, só há boas notícias. O ator tem uma interpretação incendiária que só poderá surpreender quem não acompanha a sua carreira impressionante. Será, possivelmente, o ator mais pujante a trabalhar em Hollywood no século XXI e a única hipótese racional para substituir Heath Ledger, apesar de Leonardo DiCaprio também ter sido considerado para o papel durante a pré-produção. Phoenix recorreu a alguns dos truques físicos que usou em “O Mestre” (talvez o ponto alto da sua carreira) para fazer esquecer o trabalho brilhante de Heath Ledger e o overacting adolescente de Jared Leto em “Suicide Squad”, tornando Joker numa personalidade inegavelmente sua: se suceder com dignidade a Ledger era uma tarefa quase impossível, pobre da alma que um dia tenha de assumir a personagem depois de Phoenix.

O fim da transformação de Arthur.

Enquanto o Joker de “O Cavaleiro das Trevas” é uma encarnação enigmática de puro caos, imprevisível e animalesco (veja-se os tiques de serpente que Heath Ledger usa), Joaquin Phoenix concretiza todos os aspetos possíveis da personagem, que torna mais humana e tridimensional. Verdade seja dita, Phoenix também tem muito mais tempo de antena que o seu antecessor, visto que aparece em todas as cenas do filme e é a cola que tudo sustém.

Este novo Joker, uma versão mais fiel aos comics, é mais patético e, ao mesmo tempo, mais elegante, com as suas sequências de dança memoráveis — que fazem lembrar Alex de “Laranja Mecânica” — a contrastar com momentos vergonha alheia. O trabalho de Joaquin Phoenix é fantástico até nos mais pequenos detalhes. Como os dedos de unhas roídas até ao sabugo e manchados de nicotina ou os 23 kg (!) que perdeu para o papel — é um method acting que DeNiro dos anos 70/80 iria aprovar.

Se há algum tipo de linhagem criativa que Todd Phillips procura seguir aqui é a de Scorcese, ao basear a arquitetura do guião no já mencionado “O Rei da Comédia” e “Taxi Driver”. À semelhança do clássico de 1976 que colocou Scorcese e o argumentista Paul Shrader no mapa, “Joker” é um filme combativo, construído à volta de um ponto de vista subjetivo de uma pessoa com graves distúrbios mentais, e que procura ativamente a controvérsia. Até a (interessante) banda sonora utiliza escolhas questionáveis, como a de “Rock and Roll pt2”, do músico Gary Glitter, que foi condenado por pornografia infantil em 1999. Infelizmente, e aparte as várias polémicas, “Joker” não chega ao nível de “Taxi Driver”: a cidade de Gotham não tem a personalidade da Nova Iorque de Scorcese e o guião não é brilhante como o de Shrader, faltando subtileza e profundidade na abordagem aos temas.

Por melhor que seja a interpretação de Joaquin Phoenix, o resto do filme é francamente superficial. “Joker” privilegia estilo sobre substância, mas comporta-se admiravelmente nesse aspeto: a realização de Todd Phillips (de “A Ressaca” e “War Dogs – Os Traficantes”) é seu melhor trabalho até à data e o trabalho de guarda-roupa, produção e fotografia é impecável — a imagem de Joker a dançar atrás das cortinas coloridas que aparece no final do filme é inesquecível.

O problema de fundo com “Joker” está relacionado com a fina linha que separa a caracterização de um vilão carismático de uma glamourização do seu comportamento. É inevitável pensar que haverá um público que, à imagem das massas anónimas na história do filme, irá fazer de Joker um ícone para os incel (“celibatários involuntários”, em jargão de internet), para os incompreendidos e desorientados. E sim, a maneira estilizada com que Todd Phillips enquadra o Joker de Joaquin Phoenix pode até parecer uma apologia ao seu comportamento, mas não chega a tanto: em última instância, é importante lembrar que o filme é um blockbuster desenhado para monetizar estas controvérsias e reconstruir o franchise de Batman.

Não há intenção de começar nenhum tipo de revolução em “Joker” nem o filme é bom a esse ponto. Entretanto, alguns cinemas nos EUA já proibiram o uso de máscaras nas exibições de “Joker” e a polícia de Nova Iorque promete acompanhar de perto os visionamentos.
Pode parecer um exagero tremendo, mas a memória do massacre em Aurora, num cinema que passava “O Cavaleiro das Trevas”, ainda está muito presente.

É louvável que um filme sobre um vilão de banda desenhada se atire a temas atuais (embora a história se passe no início dos anos 80) e procure o confronto com o espectador. É possível que não o faça de uma forma completamente responsável, mas, enquanto obra, “Joker” é um reflexo apropriado da psique da sua personagem principal: desconfortável, instável, carregadinho de controvérsias, e um dos filmes que melhor captura o estranho zeitgeist de 2019.

Resta saber como vai sobreviver à passagem do tempo e a futuras reavaliações mais distantes de toda a agitação mediática e tribalista.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT