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Crítica: “A Partir de uma História Verdadeira”: A escritora e o seu fantasma (bocejo)

Polanski junta as parisienses Emmanuelle Seigner e Eva Green num filme sem intensidade.

Emmanuelle, a frágil, Eva, a mandona.
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Thelma e Louise“, lembram-se? Ridley Scott junta Geena Davis e Susan Sarandon numa roadtrip imprevisível. Pelo meio, lá aparecem uns mangas armados ao pingarelho: Harvey Keitel, Brad Pitt e Michael Madsen. Os três não têm pedalada para a dupla sedutora e, verdade seja dita, andam sempre a reboque da ação. Às tantas, após uma série de fugas improváveis, a polícia cerca Thelma e Louise à beira do Grand Canyon. O que fazem elas? Um salto (i)mortal ao volante do mítico Ford Thunderbird 1966.


Vem isto a propósito de quê? Do “A Partir de uma História Verdadeira”, cortesia do octogenário Roman Polanski (84 anos). O suspense anda ali, mérito da história (verdadeira, bien sûr) e da interpretação das duas atrizes, só que falta emoção. Aquele click que te obriga a reviver o filme, quase frame a frame, na cabeça um dia depois do visionamento. Ou dois. A nova obra de Polanski é limpa, certo. E é também pouco audaciosa. Lá está, falta-lhe o tal salto para o infinito. O que é pena, porque Polanski dera muito boas indicações nos dois últimos filmes: “O Escritor Fantasma” (2010) e “Vénus de Vison” (2013).

Emmanuelle Seigner (mulher de Polanski na vida real) é Delphine, uma escritora de sucesso e emocionalmente fragilizada. Na ressaca de uma sessão de autógrafos, a fragilidade ganha ao sucesso e Delphine só encontra paz com um longo shot de vodca na companhia de uma estranha fã. É ela, L (Elle, em francês; Éle, em português; em inglês é que não resulta de todo: her). E quem é L? Eva Green, misteriosa, poderosa, perigosa e uma série mais de palavras com sufixos “osas”. Para início de conversa, veste-se sempre com cores escuras. Depois, aos bochechos, toma conta da vida de Delphine ao ponto de se intrometer no apartamento dela, a viver no quarto de um dos filhos.

E Delphine no meio desta salganhada? Deixa-se domar pelo seu fantasma sem pestanejar e entrega-se por completo numa mistura assaz completa de álcool e comprimidos intercalados por bons manjares (a cena da lagosta é deliciosa).

A ideia de Elle é libertar Delphine, tanto dos afazeres domésticos como dos profissionais, com o objetivo de escrever finalmente uma obra pura, só sua, autobiográfica, em vez de enveredar novamente pela ficção. Essa luta está bem presente em muitas cenas, com Delphine e Elle a esgrimir argumentos sobre o futuro da próxima obra, seja no apartamento da cidade ou na casa do campo. A densidade de Emmanuelle Seigner (frágil) e Eva Green (dura) é uma constante, o problema é a falta de intensidade na história – aborrecida, por sinal.

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