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Os obstáculos de “American Ninja Warrior” davam ótimos nomes de operações da PJ

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o programa transmitido todos os dias pela SIC Radical.
Todos os dias, na SIC Radical.

Todos nós, na nossa infância (ou bêbados a sair de uma discoteca), já tentámos saltar entre aqueles pinos de cimento dos passeios, para mostrar a nossa agilidade (ou que estamos mesmo muito bêbados). Também todos temos um amigo no grupo que tentou essa proeza e hoje, quando se ri, tem metade do incisivo a espreitar, que é para não se armar em campeão.

“American Ninja Warrior”, transmitido ao final do dia na SIC Radical, é esta brincadeira de saltar pinos de cimento, só que para meninos, porque as quedas são amparadas por uma piscina de água morninha e translúcida. Assim, também eu! Mentira, eu se participasse nesta pista de obstáculos acho que nem sequer passava das escadas para subir para a plataforma onde realmente começa a prova. É que aquilo é mesmo feito para malta que come batidos de proteína à pazada e treina oito horas seguidas, durante seis meses, para fazer proezas que metem as Tartarugas Ninja a um canto.

O objetivo é simples: terminar o percurso de obstáculos no menor tempo possível, para se classificarem para a final em Las Vegas e aí tentarem ganhar o título de guerreiro americano ninja (em português soa bastante ridículo) e o prémio de um milhão de dólares (878 mil euros).

Claro que, como em todos os programas de televisão da atualidade onde haja concorrentes, tem de haver uma historinha qualquer de superação ou solidariedade ou pura tragédia mesmo, na qual o concorrente é o herói. Desde que emocione o espectador, vale tudo: doenças degenerativas, catástrofes naturais, guerra, acidentes, morte (pode ser da chinchila de estimação). O tema vai variando mas um pouco de dramalhão está sempre garantido. Para compor a coisa há também um grupo de fãs com cartazes, que estão cheios de animação e confiança que o amigo vai conseguir ganhar a prova e com o dinheiro finalmente construir um abrigo para os texugos órfãos de Oklahoma City.

Esta excitação rapidamente se transforma em desilusão quando o pé escorrega no “Pipefitter” e Steve cai à água desamparado, como se tivesse sido alvejado por um sniper. Os obstáculos têm todos estes nomes ótimos: “Pipefitter”, “Double Helix”, “Invisible Ladder”, “Bungee Road” ou “Flying Squirrel”. Não sei quem inventou estas designações mas podia perfeitamente ser a mesma pessoa que inventa os nomes das operações da PJ, criações brilhantes como “Fizz”, “Remédio Santo”, “Carta Fora do Baralho” ou, o meu favorito, “Arca de Não É”. A TVI, por outro lado, tem aqui ótimas sugestões para nomes das suas próximas novelas.

Enquanto os concorrentes dão o seu máximo para ultrapassar os obstáculos, subir a “warped wall” e tentar tocar no botão vermelho que dá por terminada a prova, vamos ouvindo os comentários de Matt Iseman e Akbar Gbaja-Biamila, dois armários com voz de bagaço, que são os apresentadores de serviço e cujo propósito é comentar de forma efusiva todos os momentos da prova e também gritar “ooooooh” quando um dos ninjas cai à água. E é este “ooooooh” que resume na perfeição o verdadeiro prazer de assistir a “American Ninja Warrior”: estar refastelado no sofá a ver guerreiros ninjas americanos cair à água em câmara lenta e a sair com os sonhos desfeitos porque já não vão ganhar um milhão de dólares para gastar em boiões gigantes de “Xtreme Whey Protein”. E o mais triste, no meio disto tudo, é que quem fica verdadeiramente a perder são os texugos órfãos de Oklahoma City…

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