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“Presos no Estrangeiro”: quem sai destes buracos leva E. coli como souvenir

O humorista e cronista Miguel Lambertini escreve sobre o programa que é transmitido pelo canal National Geographic.
Passa no National Geographic.

Um dos meus guilty pleasures, além de navegar pelo feed de Instagram da Paula Bobone (se não seguem, recomendo vivamente), é ver “Presos no Estrangeiro”, que é um dos clássicos do canal National Geographic. É um dos meus programas favoritos e, como o nome indica, apresenta histórias de pessoas que foram presas quando estavam no estrangeiro, quase sempre porque acharam que nunca iam ser apanhados por transportar uma mala de viagem cheia de cocaína escondida no forro.

De facto, a maioria das detenções são por posse ou tráfico de droga. Não me recordo de ver nenhum episódio onde um estrangeiro tenha, por hipótese, matado uma senhora idosa que era sua cliente, numa cidade brasileira com um nome sui generis como, por hipótese, Maricá, para lhe sacar cinco milhões de euros. Até porque neste caso, por hipótese, o estrangeiro está preso em Portugal e a prisão da Carregueira é o Ritz Four Seasons, comparativamente com as prisões que aparecem em “Presos no Estrangeiro”. Aliás, toda as pessoas que acham que ficar preso no IC19 é tramado, deviam conhecer uma prisão na Guatemala… Porque o espírito ali é, basicamente, conseguir aguentar as próximas 24 horas vivo, que era como o Zé Carlos Pereira se sentia quando ia ao Boom Festival. Sendo que a estratégia da maior parte dos presos que aparecem neste programa é ter um ofício, uma moeda de troca que lhes permita safar-se ali dentro.

Há reclusos que arranjam aparelhos eletrónicos, outros com jeito para desenhar que fazem tatuagens e depois há aqueles que entretêm só os colegas… com o rabo. E não raras vezes, quando estou a ver o programa, chego à conclusão de que nessa situação, haveria fortes probabilidades de eu ser o gajo que tinha apenas o rabiosque para oferecer. É que eu não sei fazer nada… Eu sou comediante! O que é que eu ia dizer a um gangster de 130 quilos, com uma suástica tatuada no peito? “Espere Sr. Nuñez, não me sodomize, eu posso ser-lhe muito útil! Você já reparou que a comida aqui na prisão é tão má que parece que estamos a comer cimento? É que aquilo não é massa, é argamassa, LOL!” E era aí que ele me agarrava pelas ancas e eu começava a minha carreira como “bitch” do Sr. Nuñez.

Curiosamente, no Brasil, “Presos no Estrangeiro” intitula-se “Férias no Estrangeiro”, que é uma forma espirituosa de olhar para a experiência, mas com a qual desconfio que a maioria dos protagonistas não deverá concordar. Pessoas como o hippie australiano Mark O’Brien, do último programa que vi. Mark tinha 22 anos e estava insatisfeito com a sua vida e, então, como nos anos 80 não havia redes sociais nem Fortnite para ajudar a ultrapassar as angústias à machadada, o jovem decidiu juntar-se a um grupo na Índia liderado pelo infame guru Osho, em busca de iluminação espiritual. Foi aí que conheceu Anne, uma discípula holandesa que o encorajou a participar num plano para contrabandear uma forma exótica de haxixe, da Índia para Amesterdão, na Holanda.

Anne, como em todas as histórias de “Presos no Estrangeiro”, explicou que era facílimo levar a droga no avião sem ser apanhado e Mark, como todos os outros imbecis, que foram presos no estrangeiro, acreditou que era uma ótima ideia. O australiano comprou então seis quilos de haxixe — “Se fores apanhado é indiferente um ou seis quilos, por isso mais vale levares mais” — mas, em vez de os levar consigo na viagem, teve a brilhante ideia de enviar a mala por transportadora. Qual foi o único problema? O janado do Mark assinou a guia de remessa com o seu nome e morada reais. É o que dá passar seis meses a fumar charros e aos pulinhos a entoar mantras para alinhar o chassi do chakra. Resultado: foi apanhado pela polícia e enviado para uma prisão indiana com um aspeto absolutamente indescritível de nojento. Preferia comer todos os dias um gelado de chicken tikka masala com topping de alcatrão do que ter de ficar 24 horas naquela prisão de Nova Deli.

Mas Mark teve de se aguentar e só voltou ao seu país, em liberdade, passados quase quatro anos, com uma colónia de E. coli no bucho como souvenir. No final, comenta: “Foi uma experiência importante que me ajudou a valorizar a vida e a ponderar bem as minhas decisões. Se soubesse o que sei hoje, nunca teria feito aquilo.”

Talvez fizesse falta aos residentes das prisões da Carregueira e de Évora assistir a alguns episódios de “Presos no Estrangeiro” para perceberem como é que se faz “lá fora” a nível de correção prisional, registarem as melhores práticas e depois aplicarem quando voltarem a desempenhar um cargo de governação. Isto, claro, apenas se os serviços prisionais conseguirem desbloquear na agenda um espaço livre para ver televisão, entre as partidas de golf, os workshops de degustação de vinho e as sessões de massagens e relaxamento no spa da Carregueira.

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